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Nova NR-1 entra em vigor hoje e obriga empresas a mapear burnout e assédio

Regulamentação redefine a responsabilidade da alta gestão sobre o ambiente de trabalho

Atualizado em 26/05/2026
● Por Helen Lugarinho
Ilustração sobre mitigar risco.

A partir de hoje, 26 de maio de 2026, a atualização da NR-1 entra oficialmente em vigor no Brasil. O marco regulatório altera profundamente a forma como as empresas devem lidar com saúde mental, ambiente organizacional e gestão de riscos ocupacionais. Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) informou que a aplicação de penalidades será postergada por 90 dias para permitir adaptação das empresas.

A nova redação amplia o foco das organizações sobre os chamados riscos psicossociais, que passam a ganhar relevância obrigatória dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).

Na prática, fatores como burnout, assédio moral, hiperconectividade e ambientes de trabalho tóxicos entram definitivamente no radar de fiscalização, exigindo das empresas uma postura preventiva, técnica e altamente estratégica.

Conteúdo do Artigo

O “apagão” da saúde mental em números

A urgência da nova NR-1 é reflexo de uma crise global de bem-estar corporativo. Durante a primeira edição do Compliance Talks 2026, o professor e consultor Mário Vinícius Spinelli, ex-diretor de compliance da Petrobras e professor da FGV SP, trouxe dados alarmantes que contextualizam a mudança na lei:

  • Salto nos afastamentos: O Brasil registrou 546 mil afastamentos do trabalho por questões de saúde mental. Em 2024, haviam sido 472 mil, um crescimento de 15% em apenas um ano.
  • Explosão em uma década: Se olharmos para 2015, o país registrava 170 mil afastamentos. O salto para o cenário atual representa um aumento explosivo de 221%.
  • País mais ansioso do mundo: Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de 9% da população brasileira convive com algum transtorno de ansiedade.


O raio-X dos riscos psicossociais no canal de denúncias

Até então, o foco tradicional de SST (Saúde e Segurança do Trabalho) estava concentrado em riscos físicos, químicos e ergonômicos. Agora, a integridade comportamental assume o papel central de compliance. Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) informou que a aplicação de penalidades será postergada por 90 dias para permitir adaptação das empresas.

A necessidade de readequação se traduz na rotina dos Comitês de Ética. Segundo dados de mercado trazidos por Marília Viana, superintendente de compliance na Andrade Gutierrez, 49% de todas as denúncias recebidas pelas empresas são sobre relacionamento interpessoal, incluindo assédio e discriminação. 

Em grandes corporações, os especialistas revelam que esse volume de queixas comportamentais chega a atingir entre 60% e 70% do total.

Entre os principais exemplos de riscos psicossociais que as empresas devem mapear a partir de agora estão:

  • Assédio moral e sexual;
  • Sobrecarga de trabalho e pressão excessiva por metas;
  • Falta de apoio e preparo da liderança;
  • Jornadas prolongadas e hiperconectividade (dificuldade de desconexão);
  • Ambientes tóxicos e estresse ocupacional crônico (Burnout).

O ROI da prevenção: o argumento financeiro para o C-Level

Para as organizações que ainda enxergam a NR-1 apenas como uma barreira burocrática, o compliance pode (e deve) utilizar argumentos financeiros para engajar a alta administração.

A OMS estima que o prejuízo global com o adoecimento mental custe cerca de 1 trilhão de dólares por ano para governos e empresas. Em contrapartida, os indicadores provam o retorno sobre o investimento: cada US$1 investido em prevenção de saúde mental gera US$4 de retorno em produtividade e retenção.

Há também o imensurável risco reputacional. Relatórios da Standard & Poor’s apontam que imagem e reputação equivalem a até 28% do valor de mercado de uma grande empresa. No cenário atual, onde o julgamento público está na palma da mão, um único caso grave de assédio pode destruir o valor da marca em minutos.


O impacto prático: RH, lideranças e Compliance

A atualização exige uma atuação cirúrgica e integrada entre diferentes áreas corporativas.

RH mais estratégico

As áreas de Recursos Humanos deixam de ser operacionais e passam a liderar o acompanhamento ativo do clima organizacional, saúde emocional e prevenção de conflitos.

Lideranças preparadas contra a “infantilização”

Os gestores precisam ser capacitados para identificar os sinais de esgotamento das equipes. Contudo, há um desafio técnico: evitar a infantilização do líder. Conforme apontou o moderador do Compliance Talks Eduardo Staino, desavenças operacionais corriqueiras como disputas pela temperatura do ar-condicionado da sala devem ser resolvidas pela própria gestão de pessoas, impedindo que o compliance seja saturado com micro conflitos cotidianos e perca o foco nos riscos graves.

Compliance e uma nova técnica de investigação

O compliance trabalhista assume o protagonismo na mitigação de passivos jurídicos. No entanto, investigar assédio e riscos psicossociais exige uma abordagem humana totalmente diferente das apurações de fraudes financeiras.

Uma boa prática corporativa é a separação das frentes de atuação: enquanto a auditoria interna analisa dados frios e computadores em busca de fraudes, o compliance utiliza times focados em apurações comportamentais, onde a escuta ativa e o acolhimento à vítima são fundamentais. Como destacado no webinar, “a régua do investigador nunca pode ser o seu próprio comportamento corporativo”, exigindo extrema neutralidade e sensibilidade técnica.


Empresas e órgãos públicos podem sofrer fiscalização?

Sim. Com a vigência da nova norma, a fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego passará a auditar os programas internos de forma muito mais rigorosa. As empresas poderão sofrer sanções administrativas e multas pesadas caso não apresentem conformidade em seus processos.

Nota técnica para o Setor Público: Uma dúvida frequente respondida pelos especialistas é sobre a aplicação da norma em órgãos governamentais. A NR-1 aplica-se integralmente a qualquer organização que adote o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Portanto, empresas estatais e sociedades de economia mista (como Petrobras, Caixa e Banco do Brasil) estão sob o mesmo escopo de obrigatoriedade e fiscalização do setor privado.


Guia de adequação

Para iniciar a conformidade com a NR-1 de forma imediata, o compliance deve liderar cinco ações prioritárias:

  1. Revisar o GRO e o PGR: Integrar oficialmente os riscos psicossociais e organizacionais na matriz de riscos de saúde e segurança da empresa.
  2. Transformar o canal de denúncias em ferramenta preditiva: Deixar de usar o canal apenas como um “cartório” de recebimento reativo. O objetivo deve ser o “Canal Resultado”, utilizando os dados de denúncias de forma estratégica para mapear e georreferenciar áreas ou gestores com maior incidência de relatos, permitindo intervenções preventivas antes que o problema se torne um passivo judicial.
  3. Desenvolver políticas internas claras: Atualizar os códigos de conduta com diretrizes específicas sobre assédio, diversidade, inclusão e canais de acolhimento.
  4. Implementar grupos de trabalho multidisciplinares: Criar comitês internos periódicos unindo as áreas de Compliance, Jurídico, RH e SESMT para garantir que as ações preventivas não fiquem isoladas.
  5. Monitorar Indicadores de cultura de integridade: Assim como as pesquisas de clima anuais, as empresas devem rodar avaliações de cultura de compliance anônimas para mensurar se os colaboradores de fato confiam nos canais internos e se sentem seguros no ambiente de trabalho.

A entrada em vigor da nova NR-1 sinaliza que o bem-estar e a saúde mental deixaram de ser pautas secundárias de recursos humanos e se tornaram pilares inegociáveis de governança, sustentabilidade corporativa (ESG) e sobrevivência financeira no mercado atual.

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Publicado por
Helen Lugarinho
Sou jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense, com pós-graduação em Comunicação Integrada e Gestão Estratégica de Conteúdo pela Facha. Minha trajetória profissional é marcada por uma ampla experiência em produção de conteúdo e marketing digital, sempre com foco em conectar pessoas e compartilhar conhecimento de forma clara e impactante.
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